Não pode haver pais melhores que os seus pra você. Eles são os corretos para esta criança que recebeu deles a vida. Algumas pessoas reclamam dos pais, desejam que ele fossem diferentes do que eram e são. Dessa forma, eles não conseguem tirar dos pais o que realmente lhes deram. 

Quando olhamos para nossos pais, vemos que atrás deles há seus pais, e atrás de seus pais há outros pais, e assim por diante por muitas gerações. A mesma vida flui através de todos eles até chegar a nós. De fato, não importa como essas pessoas estavam na vida real. Se eles eram o que chamamos de pessoas boas ou se eram o que chamamos de pessoas más, se estavam cuidando de seus filhos ou talvez estivessem negligenciando seus filhos. No que diz respeito à transmissão da vida, eles eram todos iguais.

Admitir o sentimento da raiva é muito difícil. Fomos educados para que sentimentos considerados “ruins” não sejam ditos, nem demonstrados. Imagine então expor o sentimento de raiva em relação aos pais.

De acordo com a constelação sistêmica, sentimentos intensos como a raiva se originam em um momento no qual um movimento em direção aos pais foi interrompido precocemente, no qual a criança não pode prosseguir. E isso causa uma dor muito grande. Essa raiva então tem o papel de proteger a criança da dor do amor. Através dela nos colocamos ilusoriamente acima dos pais e longe do sofrimento. Não se alcança nada e ainda nos castigamos com o insucesso.

Segundo Bert hellinger  a raiva também tem a ver com um direito que a pessoa não reivindica. Se não reivindicamos um direito que nos pertence, ficamos com raiva. Estes sentimentos são apenas uma força aparente. Os sentimentos decisivos são a dor e o amor. Em vez de encarar a dor, talvez a pessoa fique com raiva. Numa sessão, o paciente lembra que apanhava do pai e fica com raiva. Ele fica com raiva para não sentir a dor. Se sente raiva, não pode sentir dor. Mas se ele disser: Isso realmente me magoou ele passará a outro nível muito mais introspectivo e forte. Penetrará mais fundo do que se ele disser: Você vai me pagar!

Como filhos, o melhor lugar é o da gratidão pela oportunidade da vida que veio através dos nossos pais. Ao se permitirem serem pais, eles permitem a nossa existência. E assim temos a chance de experimentar este mundo, ainda que com suas dores e contradições, é um lugar onde também podemos experimentar os prazeres, as conquistas e o crescimento. 

“Algumas pessoas conseguem recuperar em pouco tempo um monte de coisas, quando realmente agem. Já confissões de culpa e lamentações são apenas substitutos para a ação. Elas frustram a ação e enfraquecem”. Bert Hellinger

Na Perspectiva do trabalho das constelações, as pessoas tendem a ficar depressivas quando não podem ou não devem acolher no coração um dos pais ou ambos. Isso provoca o sentimento básico de abandono e o vazio interior, muito encontrado entre os depressivos.

As possibilidades são muitas, dependem das interpretações e expectativas dos filhos sobre os pais. Vamos desenhar algumas suposições, talvez você se reconheça em alguma delas, talvez não, mas elas servem aqui apenas para abrir as ideias quando a raiva é um sentimento que forçosamente queremos esconder até de nós mesmos porque não queremos ser "maus" ou "ingratos". Comece se despindo dessas ideias, são julgamentos desnecessários, estamos falando de sentimentos. Estamos falando de sentimentos e interpretações infantis, da criança, talvez do bebê. 

Se houve um movimento interrompido para a mãe você pode e sentir desconectado dela. Abandonado por ela, você sente raiva, a raiva é mais suportável que a rejeição. Se eu tenho desafeto com alguém, não quero presente algum. Quem se afasta da mãe, se afasta da vida, nesse sentido.

As vezes percebendo a dor de sua mãe, os filhos não querem causar-lhe  dor por meio de um bom relacionamento ou de uma proximidade com o pai. Interrompe-se o movimento para o pai mas nutre o ressentimento da mãe. "Por você eu não me permito ir".

Muitas vezes é difícil chegar a essa questão, porque o trauma esta na superfície com o pai. Conscientemente você pode ter problemas com o pai e trabalha e trabalha essas questões mas sente que não chegou lá. Talvez o conflito se manifeste em dores no lado esquerdo do corpo, o lado feminino. 

Se nasceu num momento "impróprio" para a mãe

Se a criança sentiu isso ou se ouviu isso dela pode sentir raiva evitando  a dor da rejeição. A ira pode vir com a resolução de "se você não me quer eu também não te quero" isso traz uma outra raiva, a de si mesmo por precisar da mãe. A criança decide "eu também não te quero" mas se vê dependente da mãe, precisa chamar por ela, precisa dela para se alimentar, para sobreviver. Assim sente raiva de si mesmo por precisar, e do que recebe dessa fonte.  Raiva de receber e receber com dor. Raiva de não poder fazer por si mesmo e a decisão inconsciente de "nunca mais."

No adulto isso se torna - Eu odeio a vida que tenho que viver. Eu odeio o dinheiro que preciso, o trabalho do qual dependo e  assim por diante. A dificuldade de receber se esconde por trás da dificuldade de pedir ajuda.  Alguém que quer fazer tudo sozinho, que não quer incomodar os outros com seus pedidos, muitas vezes  sente que tem que fazer tudo sozinho. Inconscientemente busca evitar a dor que um dia sentiu quando de fato não podia cuidar de si mesmo e teve que receber do outro sem dar nada. Falta-lhe a habilidade de receber de bom grado, de graça, de presente, sem se sentir em dívida, sem ficar ressentido pelo que recebeu.

Quais áreas da sua vida sente que não recebe o bastante? Sente que faz muito, mas não é bem recompensado? Onde não há retorno o bastante? É fácil pedir ajuda? Receber ajuda sem se sentir pequeno por isso?

No fim, tirando todas essas camadas de raiva e dor, de decisões inconscientes está o amor. A criança que sentiu em sua sua interpretação que o momento que chegou não era bom para a mãe,  não queria causar prejuízo a mãe e se ressente de suas próprias necessidades e fragilidades, da sua própria chegada. Porque o bebê  AMA a mãe e não queria ser um incomodo pra ela. (e ele ter sentido não quer dizer que foi)

 Como um mecanismo de defesa podemos direcionar a raiva para a  mãe... pra o trabalho...aos outros... para não vermos que  sentimos raiva de nós mesmos. Para não lidarmos com a parte de nós que nos acusa. Quando aceitamos que viemos no ventre certo, na hora que tinha que ser, que foi exatamente o que poderia ser e que não houve engano, vamos abandonando as acusações e enxergando o amor.

Se houve alguma agressão cometida pelo pai a criança pode ter raiva da mãe porque entende que ela não a protegeu. A mãe é o primeiro contato com a vida,  mesmo após o nascimento a criança é tão ligada a mãe que não se vê como um ser individual no início, e a consciência de si mesmo como um ser separado da mãe vai acontecendo com o tempo. Por isso, mesmo depois desse entendimento a ligação ainda é muito forte e tudo que acontece com a criança ela pode entender como algo que a mãe deixou que acontecesse. 

A mãe é a vida, então tudo que vivo  a mãe é vista como "responsável". É assim até tomarmos a vida, até caminharmos pra vida nós mesmos. Se não o fazemos, e digo internamente, continuamos responsabilizando a mãe por tudo que vivemos e  nutrindo raiva mesmo inconsciente.

No amor interrompido há uma separação, física ou simbólica da mãe. Essa mãe pode ter adoecido, deixado o filho para outras pessoas ou parentes criarem ou, mesmo presente, pode estar emocionalmente indisponível e fechada, talvez deprimida, talvez em luto, talvez tenha muitos filhos para dividir a atenção. A dinâmica é: quero ir até minha mãe, mas ela não está disponível.

A criança toma uma decisão para sua própria sobrevivência: ela escolhe se fechar para não padecer com a separação da mãe, se sente sozinha na vida, é ela por ela mesma. Sente raiva para se proteger da dor.

Hellinger diz que até mesmo depois de adulta uma criança que passa por isso tem medo de proximidade, pois quando se aproxima, lembra da dor do passado e interrompe o movimento.

Completar o movimento interrompido e tomar a mãe é uma possibilidade de resolver o trauma através de uma nova imagem interna. Hellinger conta que conseguiu completar esse movimento aos quase 92 anos.

A mãe foi o que pôde ser, com tudo que ela mesma viveu até ali, com as dores e anseios dela, ela fez o melhor  dentro de suas capacidades, e foi a mãe certa porque foi dela que a vida veio. Talvez tenham havido eventos traumáticos, talvez negligencia ou abandono. Aceitar ou tomar a mãe aqui quer dizer exatamente como ela foi e é. Não quer dizer que o seu relacionamento precisa mudar, você não precisa se aproximar do que não quer. É um movimento interno de: "Eu aceito receber a vida que eu recebi através de ti, e tudo que você me deu foi o bastante pra que eu desenvolvesse o meu próprio caminho."

Começa no entendimento de que a sua percepção das coisas é só isso, sua percepção. Não significa que foi o que aconteceu, que foi o que seus pais sentiram ou queriam com aquilo que aconteceu. Você faz coisas com a melhor das intenções e no melhor das suas habilidades e alguém ainda  pode se sentir ferido por isso, e julga-lo por isso. Já aconteceu com você antes e vai acontecer de novo, porque o outro vivência você com seu próprio conteúdo, e vise e versa. Ninguém sabe do coração do outro, dos condicionamentos  inconscientes que dirigem suas ações. É o trabalho de uma vida toda desvendar os nossos.

Olhem de novo para as suas mães com uma nova perspectiva, mas antes permitam-se expressar a raiva e a dor, deixem que esses sentimentos que fizeram morada, talvez no inconsciente, tomem o caminho pra fora através da consciência.

O movimento é interno e particular, pode acontecer na sua mente, no sofá da sala, somente com você e a imagem da sua mãe em mente. Coloque tudo pra fora, depois a perceba de uma forma diferente, olhe de novo pra ela, depois vá até ela, tome a vida que você recebeu de presente, tome o seu lugar na vida.

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Livros de Bert Hellinger: