Muitos anos atrás, um bombeiro de Boston, com bem mais de 40 anos, chegou certa noite ao pronto-socorro de um hospital suburbano, queixando-se de súbitas e violentas dores no peito. O médico interno o examinou e não encontrou nada de anormal no funcionamento de seu coração. O paciente partiu pouco convencido e logo voltou com os mesmos sintomas. Foi enviado para que eu, como médico da equipe principal, o examinasse, mas também não encontrei nada de errado em seu coração. Apesar do exame completo, o bombeiro voltava repetidamente ao hospital, quase sempre tarde da noite. A cada vez que chegava, sempre agitado, ele insistia com absoluta certeza de que estava sofrendo do coração. Mas nenhum exame, inclusive os mais sofisticados ecocardiogramas e angiogramas, registrou o menor problema.

Finalmente, diante da crescente ansiedade do homem, fiz-lhe uma recomendação para aposentadoria, não por incapacidade física, mas puramente por motivos psicológicos. A diretoria do setor médico do Departamento de Bombeiros recusou o pedido por não ter provas materiais do caso. 

Dois meses depois, o homem apareceu pela última vez no pronto-socorro. Dessa vez viera estendido na maca, porque sofrera um enfarte violento. O ataque cardíaco destruiu 90 % do músculo do coração; dez minutos depois, o paciente estava morto. Mas, antes, ele teve energia suficiente para virar a cabeça em minha direção e murmurar:

- Agora o senhor acredita que eu sofria do coração?

(...)  Acho que devo chamar o ocorrido de efeito quântico, porque não seguiu as regras de causa e efeito observadas pela medicina e estabelecidas como reações normais do corpo. Muitas pessoas cultivam receio de ter um ataque cardíaco, mas não morrem dele; no caso oposto, muitos ataques do coração ocorrem sem o menor aviso da mente. Mesmo se afirmássemos, de acordo com a medicina mente-corpo, que um pensamento causou o ataque do coração, como ele encontrou o meio de levar avante sua intenção fatal?

Ao programar o conceito de “ataque do coração” em um computador, saberemos exatamente o que estamos fazendo. Para obter os dados processados, os circuitos poderão ser ativados para levá-los à tela e os manipulamos segundo o método operacional de seu sistema. Mas o pensamento “ataque do coração” não agiu desse modo com meu paciente. Ele não sabia de onde viera o pensamento; quando este surgiu, ele não conseguiu escapar; em vez de ficar em seu lugar, o pensamento invadiu o corpo todo com resultados desastrosos. Essa é apenas a metade do mistério de um evento quântico — a metade negativa; a viagem à zona “?” também pode ter resultados positivos admiráveis.

Outra paciente minha, uma senhora tímida de mais de 50 anos, veio me procurar há dez anos queixando-se de fortes dores abdominais e de icterícia. Imaginando que ela sofresse de cálculos biliares, encaminhei-a imediatamente à cirurgia; porém, quando estava na mesa, revelou-se um grande tumor maligno que lhe invadira o fígado, com ramificações por toda a cavidade abdominal. Julgando o caso inoperável, os cirurgiões fecharam a incisão sem tocar em nada. Como a filha pediu para não contarmos nada à mãe, disse-lhe que os cálculos biliares haviam sido removidos e que a operação fora bem-sucedida. Imaginei que a família contaria a verdade depois de algum tempo, porque provavelmente a mulher tinha poucos meses de vida — pelo menos poderia vivê-los com tranquilidade.

Oito meses depois, espantei-me ao vê-la de volta a meu consultório. Vinha fazer exames de rotina, que não revelaram icterícia nem dores, ou qualquer sinal de câncer. Só um ano depois ela me fez um comentário estranho.

— Doutor — disse ela —, há dois anos eu tinha certeza de que estava com câncer, e eram apenas cálculos biliares; então, jurei a mim mesma que nunca mais ficaria nem um dia doente na vida.

O câncer dessa senhora nunca reapareceu. Ela não usou nenhuma técnica e aparentemente se curou a partir de uma profunda resolução, o que lhe bastou. Também devo chamar esse caso de evento quântico, devido à transformação fundamental em nível mais profundo que o dos órgãos, tecidos, células e até do DNA, ocorrida diretamente na fonte de existência do corpo, no tempo e no espaço. Meus dois pacientes

— uma, com pensamentos positivos, e outro, com negativos — conseguiram mergulhar no domínio “?” e dali ditaram a própria realidade.

Casos tão misteriosos como esses serão, realmente, exemplos de eventos quânticos? Um médico poderia criar objeções, considerando que estamos apenas fazendo metáforas, que o mundo oculto das partículas elementares e das forças fundamentais exploradas pelos físicos quânticos é muito diferente do mundo oculto da mente. Ainda assim, pode-se argumentar que a região inconcebível de onde tiramos o pensamento de uma rosa é a mesma de onde emerge um fóton — ou o cosmos. A inteligência, como vamos descobrir, tem muitas propriedades quânticas. 

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Sem definirmos o processo como “pensamento”, talvez vejamos a natureza pensar através de muitos canais diferentes, dos quais nossas mentes estão entre os mais privilegiados; ela pode criar sua realidade quântica e, ao mesmo tempo, experimentá-la.


Trecho do livro A Cura Quântica -  Deepak Chopra