Arquétipos e Mitos; Hécate, a Deusa Tríplice da feitiçaria, clarividência e renovação, que concede desejos



Deusa Hécate é a única dos antigos titãs que manteve sua autoridade quando os Deuses tomaram o universo para si. Ela tem poder sobre a terra, mar e submundo e  foi honrada pelas divindades. Além disso possuía prestígio exclusivo de Zeus, que lhe deu o poder de conceder ou negar desejos à humanidade.

 Hécate  é uma Deusa Tríplice representada ora com três corpos, ora com três cabeças humanas (ou uma de serpente, bode e cavalo/vaca). Possui em suas mãos um par de tochas ou uma chave e uma adaga e  em sua cabeça uma tiara com a lua crescente e estrelas para iluminar os caminhos, e ainda serpentes em seu pescoço.


Suas três faces simbolizam a virgem, a mãe e a anciã. Dessa forma seria capaz de olhar em três direções diferentes ao mesmo tempo, podendo ver o destino,  ela enxerga o passado que interfere no presente e que poderia prejudicar o futuro. A imagem tríplice simboliza também a extensão de seu poder sobre a terra, o mar e  sobre o submundo onde ajudava a deusa Perséfone no julgamento dos mortos.

Também é associada com a noite, com a lua nova ou negra, com a magia, profecias, cura e com os mistérios da morte. Dessa forma, é tida como a dona do ciclo natural da vida, do nascimento, amadurecimento, morte e renovação. Além de ser conhecida como a Senhora dos Mistérios e das encruzilhadas, dos cães, dos caminhos e do mundo subterrâneo.

Hécate sempre está acompanhada de três cães ou de Cérberus, o cão de três cabeças que guarda os portões do submundo.


História de Hécate


Deusa dos caminhos na Grécia, Trivia para os Romanos, também chamada de Perséia, Hécate era filha dos Titãs Astéria (a noite estrelada) e de Perses (deus da luxúria e destruição) e neta de NYX, deusa ancestral da noite. 

Hécate morava no Olimpo, mas despertou a ira de sua mãe ao roubar um pote de carmim. Fugindo para a Terra, a deusa se tornou impura, tendo que descer ao Hades para se purificar. Uma vez no submundo, Hécate tornou-se aprendiz e protegida de Perséfone e  acabou presidindo cerimônias e rituais de purificação e expiação.

Em grego o nome Hécate significa ‘a distante’, ‘aquela que age como lhe agrada’ ou ‘aquela que fere à vontade’.

Considerada a ‘Rainha da Noite’ a deusa Hécate  não possuí um mito próprio, muito provavelmente pela deturpação cristã, mas é  citada nos Mistérios Eleusis em outros mitos, tal como o mito de Perséfone e Deméter. Foi a Deusa Hécate quem guiou a Deusa Deméter durante  em sua busca por Perséfone. Sua história é contada através de seus atributos e feitos na mitologia grega. Portanto, na época pré-olímpica, Hécate era conhecida por suas qualidades como: 

  • Provedora de bens e favores
  • Concessora de prosperidade e abundância
  • Dispensadora do dom da eloquência
  • Orientadora da vitória nas batalhas e nos jogos
  • Protetora das crianças e curandeira de jovens e mulheres
  • E favorecedora da pesca, do plantio e da colheita
  •  Deusa das bruxas, dos caminhos, das passagens, protetora do lar

É dito que a Deusa Hécate espalhava benevolência entre as pessoas, concedendo graças a quem as pedia. Dava o dom da eloquência política, vitória nas batalhas, prosperidade material  proporcionava abundância de peixes e fazia prosperar ou definhar o gado. Além de ser a protetora das crianças e curandeira de jovens e mulheres. Em troca, os moradores colocavam estátuas da Deusa na entrada das cidades e das casas e ao cair da noite deixavam alimento para seus cães na soleira da porta das casas ou em encruzilhadas em Y. 

Deusa das bruxas

Além de oferecer a fartura para quem a cultua, a deusa passou a ser considerada uma divindade ligada á magia e feitiçaria. Tanto que até os tempos atuais ela é chamada de Deusa das bruxas. Dizia-se que Medéia seria a sacerdotisa de Hécate. Ela praticava a bruxaria para manipular com destreza ervas mágicas, venenos e ainda para poder deter o curso dos rios e comprovar as trajetórias da lua e das estrelas.

Como deusa dos encantamentos, acreditava-se que Hécate vagava à noite pela Terra, sempre acompanhada por seu espíritos e fantasmas. Lendas contam que ela passava pela Terra ao pôr do Sol, para recolher os mortos daquele dia e surpreendendo os viajantes, sempre acompanhada de cães, espíritos e fantasmas. 

Como feiticeira, não podia ser vista e sua presença era anunciada apenas pelos latidos dos cães. Na verdade, as imagens horrendas e chocantes são projeções dos medos inconscientes masculinos perante os poderes da deusa, protetora da independência feminina, defensora contra a violência e opressão das mulheres, regente dos seus rituais de proteção, transformação e afirmação.

As Moiras teciam, mediam e cortavam o fio da vida dos mortais, mas Hécate podia intervir nos fios do destino. Muitas vezes foi representada com uma foice ou punhal para cortar as ligações com o mundo dos vivos. 

Por fim uma história conta que Hécate com Eetes, gerou a feiticeira Circe, deusa da noite com um imenso poder da alquimia. De acordo com a mitologia grega, Circe criava venenos, poções mágicas, além do poder de transformar homens em animais.

Para a mitologia romana, Hécate é conhecida como Trívia, a deusa das encruzilhadas, que andava acompanhada de seus cães, lobos e ovelhas negras. Dessa forma, era considerada como uma divindade tripla, lunar, infernal e marinha, por isso, os marinheiros consideravam Hécate como sua deusa titular, lhe pedindo que lhes proporcionasse uma boa travessia em suas viagens.

Outra história que é bastante contada,  é que Hecate teria emprestado um disfarce ao deus Júpiter, o que facilitou a sua busca por amantes. Juno teria ficado zangada obrigando a Deusa á se esconder em um lençol que a tornou impura. Júpiter teria enviado cabirras para purificar Hecate no Aqueronte, onde tornou-se a deusa do Tártaro.

Hécate e Hermes

Em alguns cultos gregos, como aqueles realizados nas cidades de Pherae e Elêusis, a Deusa Hécate era considerada esposa ou companheira do Deus Hermes, que entre todas as suas atribuições, também era responsável pela condução dos mortos ao submundo.

Em vista disso, ambos os deuses eram considerados os senhores dos fantasmas e dos mortos e tanto Hécate como Hermes teriam resgatado Perséfone do domínio de Hades, do submundo.

DEUSA DAS MUDANÇAS

Hécate está presente nos momentos de necessidade e nos lembra da importância de  nos libertamos do passado que nos persegue, atrapalha nosso crescimento e evolução, para aceitarmos as mudanças e transições. Ela também nos ajuda a encontrar um novo caminho através de novos começos, a pensar de maneira correta apesar da confusão das ideias ou da flutuação dos nossos humores. Às vezes ela nos pede para deixar o que é familiar e seguro para viajarmos para os lugares assustadores da alma. Novos começos nem sempre são fáceis mas Hécate está lá para apoiar e iluminar o caminho com suas tochas através das incertezas que enfrentamos nas mudanças as inevitáveis na vida.

Ela empresta sua clarividência para vermos o que está profundamente esquecido ou até mesmo escondido de nós mesmos, ajudando a encontrarmos e escolhermos um caminho na vida. Com suas tochas, ela nos guia e pode nos levar a ver as coisas de forma diferente, inclusive vermos a nós mesmos, ajudando-nos a encontrar uma maior compreensão de nós mesmos e dos outros.


Hécate  também é um arquétipo primordial 

Ela traz o arquétipo da mulher sábia e observadora que é dona dos próprios caminhos, da mulher independente e livre que não se atém a nenhuma forma de submissão. 

Ela é aquela que se movimenta entre os mundos e se revela no olhar daqueles que olham para passado, presente e futuro por meio de ferramentas oraculares. que nos permite  acesso às camadas mais profundas da memória ancestral. O arquétipo dos ciclos e da transformação, do renascimento necessário, nos lembra da  necessidade descermos ao nosso submundo, nossas próprias sombras afim de renascermos para algo melhor.

Ela reconhece os medos e limitações, encara o sofrimento e segue em frente mesmo que por um caminho doloroso. Encarar a própria história torna-se essencial para  seguir em frente e com essa postura podemos usufruir da situação para nos fortalecermos e transformarmos. 

ELEMENTOS E ASSOCIAÇÕES:

  • Ervas
  •  Possuindo uma profunda ligação com a natureza e com a feitiçaria muitas ervas são associadas com essa divindade. De modo geral, todas as plantas venenosas e todas as plantas medicinais compõem sua simbologia. 
    • Dentre elas o alho se sobressai, responsável pela proteção, anulando energias negativas e protegendo contra pessoas e espíritos sem luz.  Hécate adora receber ofertas de alho em troca de bênçãos.
    • Outras plantas associadas à Hécate são; carvalho, teixo acônito, beladona, ditamno, salgueiro, teixo, mandrágora, cíclame, hortelã, tamareira, dente-de-leão e o cipreste  que é associado à imortalidade, intemporalidade e eterna juventude.
  • Dia da semana e mês do ano
    • Existem alguns dias do ano reservados para cultos e rituais destinados à Deusa Hécate. Deste 3 são os mais importantes:
    • O primeiro deles ocorre no dia 13 de agosto, quando as bruxas fazem um festival pedindo para que Hécate não envie tempestades desagradáveis para a Terra.
    • A segunda data de Hécate é o dia 31 de outubro, o dia das bruxas. Embora os festivais de Halloween sejam tradicionais da cultura Celta, existem homenagens para Hécate nesse dia em razão do seu domínio sobre o mundo dos mortos.
    • A terceira data de Hécate é o dia 30 de novembro. Trata-se de uma comemoração moderna em homenagem à Hécate, em que as pessoas fazem rituais nas encruzilhadas pedindo proteção para essa divindade.
    • Dias de honra a Hécate em geral – 31/01, 27/02, 04/03, 13/08, 21/09, 31/10, 01/11, 07/11, 16/11.
    • Festas de Hécate – 13 de Agosto e 30 de Novembro.
    • Dia da semana – sábado ou segunda-feira.
    • Mês do ano – Agosto

  • Cores de Hécate
    • Preto; representa seu papel como Rainha e caminhante da noite, Líder da Horda de Espíritos, e a cura emocional que ela muitas vezes traz.
    • Vermelho; é para o sangue da Mãe que flui dentro de cada um de nós. A interface entre o mundo invisível e o material.
    • Branco; é para Hekate como The Star Walker, a força universal de criação e destruição. O branco simboliza o Eu Superior. 
    •  Azul; é  associada à realeza e por seu papel como Rainha do Mar.
    •  Dourado/Amarelo: Os antigos tinham uma queda por descrever Hecate como vestindo amarelo e dourado. Isso vem do uso de açafrão como corante usado nas vestes mais caras usadas pela realeza. 

    • Animais – mariposa, cão, loba.
    • Elementos naturais – água e terra.
    • Lua – Minguante e Nova.
    • Pedras 
      •  Obsidiana: uma pedra de proteção e para banir o que faz mal. Gemas mágicas antigas representando Hécate foram esculpidas em obsidiana.
      • ônix, turmalina negra, bronze,  ouro,  ferro, o lápis lazúli e qualquer outra pedra e cristal que possua cor preta 
    • Associações com a deusa- trabalhos psíquicos, mistérios e segredos profundos e escondidos, predição, feitiços e transes.

    • Símbolos
    • Chave
      •  Hécate é a guardiã das chaves do universo, segundo os escritos antigos. Ela costuma usar as chaves como mensagens para as suas bruxas. As chaves levam as pessoas ao encontro com o inesperado e, em seguida, desvendam o seu significado.
    • Tocha de fogo
      •  Hécate é a portadora da tocha que ilumina o caminho nos tempos mais sombrios, guiando-nos de volta à sua caverna para nosso renascimento espiritual. Através das suas tochas, Hécate conseguiu derrotar um Gigante e também conseguiu salvar Perséfone do Submundo.
    • Roda de Hécate
      • A Roda de Hécate, ou Strophalos, é um símbolo formado pela imagem de três círculos, um dentro do outro, sendo que o segundo círculo se abre em formas serpentinas. O símbolo contém mais seis linhas centrais, que criam o efeito visual perfeito de um labirinto. Trata-se de uma imagem que representa caminhos entrelaçados que desorientam o indivíduo, causando indecisão e confusão. Essa imagem pode ter várias funções ritualísticas, podendo ser empregadas em rodas de espaço-tempo, oráculos, meditação, projeção astral, necromancia, evocação, atividades de curas e de maldições.
    • Corrente
    • Hécate é associada àquela que quebra as correntes, rompendo a ligação que as almas tinham com o mundo material e encaminhando-as para o submundo, onde ela impera e é reverenciada pelos mortos e pelos espíritos.
    • Espelho mágico
      • corresponde a uma das associações da Deusa Hécate com os seus poderes oceânicos. Hécate assume todos os aspectos aquáticos da mitologia e todos os seres que podem vir com ele. Isso inclui emoções, o lado feminino, a sexualidade, os sonhos, a criação, a vida e a morte.
    • Encruzilhada
      • A encruzilhada é o lar espiritual de Hécate e das suas bruxas, simbolizando o espaço entre o mundo físico e o mundo dos espíritos. As encruzilhadas de três vias são portais especialmente poderosos para se conectar com a Deusa Hécate.
    • Máscara
      • Muito provavelmente, as representações triplas da Deusa Hécate surgiram em decorrência do uso de três máscaras em volta de um pilar central, nos cruzamentos de três vias, em que cada máscara era posicionada diante de cada uma das direções. Ficava indicado, assim, o lugar espiritual de Hécate, bem como os caminhos que estavam sob a sua proteção.

    Hécate e o sagrado feminino

    A poderosa deusa possuía todos aspectos e qualidades femininos, tendo sob seu controle as forças secretas da natureza. Considerada a patrona das sacerdotisas, deusa das feiticeiras e senhora das encruzilhadas, Hécate transita pelos três reinos, a todos conhece mas nenhum domina. Os três reinos são posses de figuras masculinas, mas ela está além da posse ou do ego, ela é a sábia, a anciã. A senhora do visível e do invisível, aguarda na encruzilhada e observa: o passado, o presente e o futuro. Ela não se precipita, aguarda o tempo que for preciso até uma direção ser tomada. Ela não escolhe a direção, nós escolhemos. Ela oferece apenas a sua sabedoria e profunda visão, acima das ilusões.

    Conexão com Hécate

    Hécate nos ajuda a mergulharmos em nossas sombras, retirando  nossas máscaras e nos envolvendo em autodescoberta. Para receber seus dons visionários, criativos ou proféticos, precisamos mergulhar nas profundezas do nosso mundo interior, encarar o reflexo da deusa escura dentro de nós, ao reconhecermos sua presença em nós, ela irá nos guiar. Porém, devemos sacrificar ou deixar morrer o velho, encarar e superar medos e limitações. 

    A conexão com Hécate representa um valioso meio para acessar a intuição e o conhecimento, aceitar a passagem inexorável do tempo e transmutar nossos medos perante o envelhecimento e a morte. Hécate nos ensina que o caminho que leva à visão sagrada e que inspira a renovação passa pela escuridão, o desapego e transmutação. Ela detém a chave que abre a porta dos mistérios e do lado oculto da psique. 

    Da mesma forma, Hecate faz uso de suas tochas para iluminar nossos caminhos e nos auxiliando na hora de recomeçarmos algo. Sua tocha ilumina tanto as riquezas, quanto os terrores do inconsciente, que precisam ser reconhecidos e transmutados. Ela nos conduz pela escuridão e nos revela o caminho da renovação.

    Ao mesmo tempo, ela também é conhecida como uma deusa do caos, fertilidade, parto, protetora da navegação, do espectros e terrores noturnos. Dizem que ela é capaz de despertar o feminino que existe em nós.


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